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My heart has the color of sepia, and my soul tastes like youth.
Entre Redemoinhos

Se o rádio não zumbia, então a televisão devia estar ligada em algum cômodo da casa, poluindo o ambiente com ruídos e propagandas efusivas; aquilo tudo porque eu precisava de barulho. Eu precisava da ilusão de que não estava sozinho em casa… meu ser urgia por aquela breve trapaça psicológica porque sentia falta daqueles dias melancólicos, nos quais tu e eu tomávamos chá na cozinha.
Éramos apenas dois rostos que se olhavam e desejavam os desejos um do outro. No entanto, secretamente, minha face desejava os teus segredos. O meu corpo, se é que eu tinha um, desejava o teu.
Em segredo, o meu vazio queria ser preenchido com a tua carne.
Com os teus sussurros, teus torpores.
Eu sentia falta dos dias demasiadamente brancos e de lábios carnudos, que de tão alvos me impediam de ver a fumaça que era expelida pelos meus cigarros… eu tinha que me basear pelas cinzas emergentes.
Mas agora… agora, eu estava aqui, meio sozinho.
Meio jogado, a mercê de conversas nada recíprocas com os radialistas que tocavam no rádio, sentindo — na verdade, implorando — que a tua presença, um dia, adentraria a minha moradia pela porta da frente e tu, como que trazido pelas nuvens, pousaria os pés do lado do sofá e perguntaria:
— “Eu posso me sentar?”. — entre redemoinhos.
Talvez, eu sorriria um sorriso sentido, sonhado, sinestésico e sofrido, rico em devaneios e perspectivas; faria um blasé para não perder o costume de te provocar, e, então, afastaria.
Afastaria cinquenta anos de vida e te esperaria sentar para, só então, te abraçar.
Jogar-me nos teus braços e ser protegido através do fio de vida que me restaria.

E tomar chá na cozinha, como naqueles dias melancólicos, os quais sinto tanta falta.

Ricardo Oliveira

Brinquedo Humano

Eu queria poder… não, eu queria dever o meu apego! Eu gostaria que, por um lapso de momento, tu entendesses, meu querido, que esta minha condição humana nunca, verdadeiramente, existiu. Tudo por aqui sempre foi meio vazio. O que tu vês em mim: meu rosto, meus braços, meu corpo, é expressão de um vazio maior.
De um vazio que quase toca o divino, mas que não passa de poeira pisada pelos homens.
É a capacidade expressiva de um vazio terroso e oco, que se preenche de ar, de vento, de brisa e de toque.
E então, eu te pergunto, tremendo por dentro: “O meu vazio tá, assim, tão evidente? Eu estou, assim, tão vazio por fora, também? É por isso que tu queres ir embora?”; mas é como se não adiantasse, nada me tiraria do início do meu período de cem anos de solidão.
Cem anos, nos quais até mesmo o vento me abandona.
Principalmente, o vento… e o mar.
Eu queria dever o meu apego ao teu abraço e nunca mais sair… ter coragem de tirar essas pedras e conchas dos bolsos e voar em direção ao firmamento, ao invés de sucumbir aos momentos de solidão e me afogar no lago ao lado de casa.
Mas, ao mesmo tempo, eu preciso te entender, mon ànge… tu não há de querer algo tão vazio como eu perto de ti, perto da tua intimidade.
Eu preciso entender! Eu preciso entender do que são feitos os brinquedos humanos que tu descartas como se descartasse a insignificância de algo como eu! Eu preciso aprender a estar contigo, a não tropeçar, enxugar o suor das mãos…
Porque eu nunca estou na condição de quem brinca.
Brinquedo humano.
Eu preciso entender onde a minha complexidade te apavora e, assim, talvez, me apagar um pouco, reescrever algumas linhas, ser um pouco mais feliz…
Tudo o que eu queria, neste momento, era dizer:
Me leva.”

Ricardo Oliveira