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My heart has the color of sepia, and my soul tastes like youth.
Monólogo? Conversa?

“Creio que estes são apenas personagens que sentem aquilo que eu jamais serei capaz de sentir. De certo modo, eu não acho isso maravilhoso porque dói, compreende? Dói escrever para algo que não existe; escrever para um personagem que habita em unicamente em mim.
Incólume.
Insípido.
Eu quero morrer.”

Tu não te lembras! A xícara bateu forte no vidro da mesa. Como pudeste ter esquecido daquela conversa, marujo? Como pudeste esquecer das, enfim, lições que tiramos de tudo isto? Tu não te lembras, mas eu lembro. Um gole desfrutado do chá. E é verdade o que, no final, tu acabou dizendo. Eu sei, eu fantasio demais… eu crio personagens sagrados, imaculados, que circundam o meu intelecto, fazendo com que eu me sinta pior do que naturalmente sou. Tu sabes que eu queria que tu estivesse, realmente, me ouvindo, não sabes? Eu escrevo sobre santos.

O outro sequer olhava, será que importava?

Ah, seu velho babão! Pois que continue a ler teus livros até que eles próprios te engulam!

Será que se importava?

No decorrer da palma, tu me ensinou, marujo, que, ao final de tudo, sempre estaremos sozinhos nos regozijando de nossas próprias incertezas e abrindo a boca para proferir meias palavras entendidas por ninguém. Hoje, eu olho para o teu rosto e me lembro da tua solidão. E me lembro de como era difícil te fazer sorrir.

Pausa. Um olhar cansado é jogado em direção às mãos que portam a xícara colada à mesa.

E lembro que tenho me tornado um rodopio de solidão, que o teu rosto me recorda um tempo no qual eu lutava para forjar a solitude que, hoje, é a minha prisão. Tenho vergonha por depender da tua mão para não sentir a pedra bruta que habita o meu interior. Por precisar de tua ação erosiva e por, olha só, já estou fazendo de novo: sempre rumar em direção ao subjetivo.

Levantou-se, apanhou o velho casaco e saiu de casa.

Ricardo Oliveira

likeafieldmouse:

J. M. W. Turner

1. A Harpooned Whale

2. Sea Monsters and Vessels at Sunset

3. Storm Clouds


Pedaços de carta, abstrações e subjetividades

Digo-te: tu és uma das linhas cruzadas no caminho que a vida faz na palma da minha mão esquerda. Sim, há um certo tipo de chulismo nisso tudo. Uma estaca que se fincou e não largou mais a minha carne… algo para o qual eu habituei-me a constantemente olhar e tornou-se impossível viver sem sentir teu olhar (com a saudade). Embora tu não estejas mais, eu tenho de convir que ainda há algo teu por aqui.
Há uma estaca cravada na minha carne.
(onde teus dedos permaneceram)

Algo teu.

Há um sol que se põe,
Há um vento que sopra,
Há um mar que se agita,
Há um pé que passa tranquilo.

Há um certo tipo de esquecer.
Um esquecer que esquece no escuro do calor quarto; no exato momento em que os sussurros reinam etéreos e o mundo não passa do espaço morno que existe entre o meu ouvido e o teu hálito (entre o meu ouvir e a saudade).
Há um esconderijo debaixo dessa melancolia.
(eu me cravarei em teu corpo)

Algo teu.

Há um bando de pássaros que voam para o sul,
Há pegadas que deformam o chão,
Há uma linha que me puxa,
Há uma imensurável saudade.

Há no meu sentir.
Algo teu.

Ricardo Oliveira