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My heart has the color of sepia, and my soul tastes like youth.
Os hibiscos

“Eu tentei esperar pela tua mão, meu querido! Eu digo, sangrando, que esperei até perceber que tu nunca voltarias; que eu não passava de um tolo por acreditar que tu, algum dia, te atreverias a escrever-me uma única palavra. Eu precisei de um tempo, eu confesso, para perceber. Um tempo no qual trouxe meus caracóis para bem perto de mim, e senti a minha própria terra.
Terra que se sustenta sozinha — e rejeita o equilíbrio da maré — e se contenta com a mera ação erosiva do vento, que, na teoria, deveria ser leve e equilibrada, mas, na prática, é rude como um corte bovino.
Como as mãos de quem porta o machado que parte a lenha.
Eu senti raiva de ti, mas juro-te que não era nada de tão ruim que eu não pudesse suportar… a ausência que meu corpo tinha do teu, todos os dias, era exatamente vinte e duas vezes maior do que o sentimento odioso que crescia em meu seio. Eu tentei esperar porque era a única coisa que me cabia fazer… eu me imaginava como uma planta, fixa ao solo, que precisava ser regada todos os dias, religiosamente no mesmo horário, não com mera água, mas com um oceano inteiro.
Um oceano inteiro a cada dia.
Além disso, em meu imaginário, era função tua regar-me e fazer-me florescer e gerar meus frutos, os quais eu doaria com imenso apreço a ti.
E tu comerias parte de mim a cada mordida que desse naquelas células frutívoras e amorfas que saíssem de minhas flores.

‘Que cores teriam as minhas flores?’
‘Que sabores teriam os meus frutos?’
‘Que formatos teriam, se brotassem, as minhas folhas?’

Questões que eu, semente que sequer chegou a ser broto em tua ausência, nunca pude e, talvez, nunca poderei responder, uma vez que tu jamais estiveste, realmente, aqui para regar-me com teu Índico de dúvidas e medos, e saciar-me de nutrientes que eu, facilmente, poderia ter encontrado nas fibras do teu coração. Eu teria cometido o pior dos atos de canibalismo e me embebido de tuas lágrimas…
E, do nosso egoísmo, eu brotaria, resplandecente blasé, e te olharia bem dentro dos olhos inundados de água verde-mar-azul e agradeceria.
Eu tentei acreditar que pelo fato de tu, assim como eu, ser mais um afeito de livros, estarias sempre aqui na minha estante, como eu estive, por muito tempo, na estante de outrem, até ser descartado por completo, página por página, e virar nitrato… absorvido pela terra.
Nunca existiu sequer sopro da tua mão para indicar-me o caminho a ser seguido — eu andei descobrindo tudo por aí, inclusive o beco no qual me perderia e te obrigaria a vir me encontrar, eu te torturaria por cada segundo de ausência, seu canalha! Mas escolhi a opção mais realista e não fui perder-me, já que o prejuízo seria total e unicamente meu… tu não irias me encontrar. — até hoje, eu ando envolto por esse manto de escuridão, passo a passo, mãos e braços estendidos frente ao corpo, desviando obstáculos.
Olhos que se fecharam em uma brincadeira de ‘cabra-cega’ e nunca mais se abriram, sentindo por tudo o que aconteceu… ou melhor, por tudo o que não aconteceu. Olhos que criaram fantasias e palavras afáveis, barcos, mares, espadas e aventuras…
Olhos que, hoje, percebem-que-foi-tolice. Ou não…
‘Ou não?’
Não importa, de certa forma, porque, hoje, eu acordei e haviam flores. Hibiscos lindos que brotaram da raiva que eu senti de ti… mas eles ainda não eram parte de mim. Estavam apenas ali, dispostos a toda sorte mundana que há do lado de fora da janela do meu quarto. Esses hibiscos não representam aquilo que eu mais quero ver, sentir e cheirar… eles não representam meus sonhos que se recusam a nascer, a esperança que morre a todo amanhecer, a apatia.
A bela apatia.

O sussurro.


A brisa.

Os rostos que passam.


O meu eu, que, por algum acaso, se perdeu quando tu partiste em direção ao teu próprio eu… em direção aos teus hibiscos, aos teus mares e misticismos ondulosos.
Eu sinto muito pela raiva…
Eu sinto muito porque jamais andei com minhas próprias pernas, por nunca ter visto com meus próprios olhos.
Por nunca ter sentido com o meu próprio ser.

Eu sinto muito por quase inexistir.
(Quem aqui escreve não sou eu, mas o pequeno filete de existência que ainda resta).”

Ricardo Oliveira