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My heart has the color of sepia, and my soul tastes like youth.
Brinquedo Humano

Eu queria poder… não, eu queria dever o meu apego! Eu gostaria que, por um lapso de momento, tu entendesses, meu querido, que esta minha condição humana nunca, verdadeiramente, existiu. Tudo por aqui sempre foi meio vazio. O que tu vês em mim: meu rosto, meus braços, meu corpo, é expressão de um vazio maior.
De um vazio que quase toca o divino, mas que não passa de poeira pisada pelos homens.
É a capacidade expressiva de um vazio terroso e oco, que se preenche de ar, de vento, de brisa e de toque.
E então, eu te pergunto, tremendo por dentro: “O meu vazio tá, assim, tão evidente? Eu estou, assim, tão vazio por fora, também? É por isso que tu queres ir embora?”; mas é como se não adiantasse, nada me tiraria do início do meu período de cem anos de solidão.
Cem anos, nos quais até mesmo o vento me abandona.
Principalmente, o vento… e o mar.
Eu queria dever o meu apego ao teu abraço e nunca mais sair… ter coragem de tirar essas pedras e conchas dos bolsos e voar em direção ao firmamento, ao invés de sucumbir aos momentos de solidão e me afogar no lago ao lado de casa.
Mas, ao mesmo tempo, eu preciso te entender, mon ànge… tu não há de querer algo tão vazio como eu perto de ti, perto da tua intimidade.
Eu preciso entender! Eu preciso entender do que são feitos os brinquedos humanos que tu descartas como se descartasse a insignificância de algo como eu! Eu preciso aprender a estar contigo, a não tropeçar, enxugar o suor das mãos…
Porque eu nunca estou na condição de quem brinca.
Brinquedo humano.
Eu preciso entender onde a minha complexidade te apavora e, assim, talvez, me apagar um pouco, reescrever algumas linhas, ser um pouco mais feliz…
Tudo o que eu queria, neste momento, era dizer:
Me leva.”

Ricardo Oliveira